ZERO

“ZERO” é o numero de ideias que ele tem agora. “É hora de tomar um rumo”, pensa ele, agora um recém formado, mas qual rumo? A ideia imposta pela sua ideologia de criação é clara e simples. Estude, tenha um bom emprego, case, tenha filhos e aquela balela toda que ele ouve desde que nasceu. Mas isso soa patético, desesperador. Acordar, ir para o mesmo local, passar 8 horas, voltar, sentar na frente da tv, dormir e assim os dias se passam um após o outro.

“Não”, pensa ele, “Não quero isso”. Qual o outro caminho então? Ser altruísta, um heroi, ser admirado pela coragem, por ajudar, por lutar pela liberdade de um povo oprimido. Parece uma boa visão, mas a vida não seria dele, seria doada em função de outros. Ghandi, Madre Tereza, Luther King fizeram isso, mas ele não, tem apenas uma vida, ele não quer disperdiçá-la sendo bom com os outros.

“Poder, é isso que preciso”, pensa ele, ter ferrari’s, mansões, mulheres, dinheiro ilimitado. Sim, é isso que ele quer. Mas, a menos que tenha nascido virado para lua, só se consegue poder com trabalho, esforço, jogos de poder. Isso é cansativo demais, e provavelmente quando ele conseguir, já estará velho demais para aproveitar, isso se conseguir.

“Viajar” é o que lhe resta. Conhecer o mundo, “trabalhar” o suficiente para ir de um lugar para o outro, entrar para uma ong vez ou outra para “ajudar”, mentir para as mulheres que tem “poder e fama” e assim viver, sendo único, destemido, ter tudo e não ter nada. Sim, é isso que ele quer, ser livre, sem amarras, sem compromissos, com desafios dia após dia, viver intensamente. Ele não quer estar na média, se mediano é ser medíocre.

“É hora” de por em prática, junta as economias, pede ajuda para os pais, mas o dinheiro não dá nem para o começo, faz um empréstimo no banco, afinal, vai para longe, vai ser livre, e não pagará juros, aliás, não pagará a dívida.

“Tudo pronto”, finalmente ele embarca em um avião, o mp3 ligado por baixo do moletom e do capuz, para ser rebelde até mesmo com a aeromoça, o avião decola e ele respira fundo. “Lá vou eu mundo” e finalmente ele sente que achou seu rumo.

“Fortes Turbulências” é o que o comandante diz da cabine, o avião treme mais que o normal, e a turbina direita, de repente se incendeia. Ele entra em desespero, se arrepende de tudo, queria todas as outras hipóteses, menos aquela, queria estar na média, mas não está. Em parte, isso o faz se sentir menos pior.

“ZERO” é o número de sobreviventes do avião, uma “média” de 40 pessoas morreram na queda, o restante  afogadas.