Ao som de “Enter Sandman” ele pisava fundo no acelerador, gostava de ouvir seu motor V8 rugir como um monstro desses de filme, na pista da esquerda na BR, com a seta ligada o tempo todo pedindo passagem, sentia a potência do carro transpassar para suas mãos transformando carro e motorista em uma só coisa, dançando na pista a 180 km/h estava apenas começando a mostrar do que era feito. Ah, a velocidade! Não bastava ser rápido, não bastava ser o mais rápido, ele queria sentir que encontrou seu limite, e ultrapassá-lo, ir além, muito além dele.
A música toca – “Seek and Destroy” – o carro mais rápido beirando os 200 km/h. Ele não enxergava nada ao seu lado, aliás, não ousava olhar para os lados, mal respirava, adrenalina alta demais, força e potência, mais potência, pisou mais fundo e então nota mais um carro. Indo pela pista da direita, o estava alcançando, uma gargalhada, e pisa mais fundo, 235 km/h, o carro ao lado acompanhando e os motores gritando tão agressivos quanto tornados saindo de uma feroz tempestade.
O carro ao lado grita mais forte, e abre uma pequena distância, outra gargalhada, ele agora era pura adrenalina, sentia o sangue correr em cada veia, ouvia cada peça do motor trabalhando, cada gota de óleo circulando no motor, cada pingo de gasolina explodindo enquanto a velocidade aumentava para alcançar o carro ao lado, 260 km/h foi o suficiente para ultrapassá-lo. Sua mente estava livre, somente a velocidade, não ouvia, não via, apenas sentia a velocidade.
Mas a música muda, “The Unforgiven II”, ele agora a ouvia, distante no meio do som do motor, o carro ao lado diminui rapidamente, ele ri, foi mais rápido, mas isso não é suficiente, e então o tempo para, os 260 km/h passam em câmera lenta enquanto ele vê uma curva ao longe, consegue pensar mais rápido que isso, achou seu limite, era hora de ultrapassá-lo, pisou mais, e o motor faz seu último esforço desesperado para atender a seu mestre, ruge como se fosse explodir, e trava seus 268 km/h, ele ultrapassou seus limites, se superou e ria enquanto via a curva se aproximando.
Pode ver cada capotagem que o carro fez, ouviu cada pedaço de mental entortar, cada vidro estourar, cada peça do motor quebrar, viu tudo em câmera lenta, enquanto sentia alguns ossos quebrarem e pedaços de metal o atravessarem até o carro finalmente parar, esmagado com as rodas para cima. Um grande silêncio paira. Ele quase não respira. Não se mexe, o corpo inteiro dói. Sente sangue escorrendo pela boca, caindo em seus olhos, que veem tudo invertido agora. Mas ele sorri e gargalha. O som quase destruído agora toca “Nothing else matters”.
E nada mais importa, por que ele conseguiu o que queira.