Ela acorda irritada, sem cobertor de novo, olha para o lado e lá está seu parceiro, enrolado como em um casulo, roncando alto, de costas para ela.
Levanta brava, como ele a irrita, ele é apenas a gota d’água, está sem paciência consigo mesma. Caminha até a cozinha, está abarrotada de louças, apenas suspira desanimada e procura um copo para tomar água, mas descobre que não há nenhum limpo, desiste, vai até a sala e abre a janela. Fica lá parada observando a rua deserta, mais especificamente o nada.
Reflete sobre si mesma, e se pergunta: “o que aconteceu comigo?”, tinha tantos sonhos, ilusões, planos. Queria ser médica, cardiologista para ser exata. Estudar muito, se tornar referência, ser a melhor, viajar para lugares desconhecidos levando conhecimento, ajudar as pessoas, ajudar humanidade. Ir para África talvez? Fazer a diferença, mostrar ao mundo quem ela era.
Mas ao invés disso, preferiu acreditar em juras de amor eterno, da perspectiva de uma vida de realizações a dois, de um mundo romântico e regado a rosas e flores pelo seu caminho. Abriu mão de tudo, afinal para algo assim dar certo, são necessários sacrifícios, cujos quais serão recompensados por novos horizontes, um novo dia a cada alvorecer, uma nova cumplicidade e o mesmo amor e paixão do primeiro dia em que seus olhares se cruzaram.
Trocou seu jaleco branco de médica por um vestido branco de noiva, trocou seu árduo caminho para a realização de um sonho por um tapete vermelho em uma igreja, trocou os gritos de um povo em sofrimento pelas músicas agitadas da festa de casamento, trocou as bençãos de agradecimento de pessoas que ajudaria a salvar pelo sorriso feliz dos convidados, trocou sua alma livre e destemida por um mundo modesto e feliz.
Mas seu mundo feliz aos poucos desmoronou, a colação de grau no curso agora escolhido em conjunto, não foi a realização pessoal, foi um alívio por se livrar de algo que aprendeu a ter raiva. A tortura de acordar dia após dia para trabalhar e se trancar naquele cubículo fechado a enoja, e os fins de semana antes tão românticos e promissores, hoje são feitos de futebol na televisão e programas de “emburrecimento cultural”. A rotina impera e tudo é previsível, tão previsível que sua fuga é dormir e sonhar, dormir não pelo cansaço, mas para ficar mais tempo longe de sua realidade.
Suspira na janela de novo e uma lágrima escorre de seu rosto, e ao longe ouve uma voz: – Amor, está tudo bem?
Essa voz quase a faz pular pela janela de desespero e raiva, mas se segura e responde: – Está, só não aguentava mais ouvir você roncando. – Eita mau humor hein? – ele responde mal-humorado.
Ela fica em silêncio, “mau humor?” pensa num misto de raiva e tristeza, ele destruiu sua vida, a fez abandonar sonhos, lhe prometeu felicidade, lhe prometeu uma vida que não é esta. Monstro insensível, aliás, monstro é um elogio, ele é algo pior.
Ainda brava ela caminha para a cama novamente, onde ele agora parou de roncar, mas antes de entrar no silencioso quarto, ela se encosta na porta e por um instante se volta a realidade. Ele nunca prometeu nada, ela imaginou essa vida, ele não a fez desistir, ela desistiu, ela teve medo do mundo novo e incerto, ela teve medo do duvidoso e resolveu se esquivar atrás de uma vida mediana e desanimadora.
Deitou novamente, e puxou seu lado do cobertor, de costas para seu parceiro, olhou o calendário ao lado da cama, suspirou de novo e pensou:
- TPM maldita.
Começou a variar? Quero o fim do arco do Anjo da Noite.