Indiferença

“Ele” caminha perdido, andando lentamente em meio a empurrões e confusões, pessoas gritando e correndo, desesperadas tentando chegar a lugar algum. Mas “ele” continua caminhando lentamente, não há pressa, não há sorrisos, não há tristeza, não há frenesi, há apenas uma calma permanente, com um cigarro acesso, e um mp3 player barato tocando “hang on”, observa distraidamente o céu, o alvorecer, mas é indiferente, o acha impertinente.

Continua caminhando, se encosta no ponto de ônibus e aguarda. Não há muito o que fazer além de esperar e observar a um casal brigando dentro de um carro, talvez recém-casados ou apenas namorados, quem sabe?, eles gritam, gesticulam e gritam de novo.

“Ele” continua observando indiferente, e ela grita alto, tão alto que se ouve ao longe:

- Você é a pior coisa que me aconteceu na vida.

Ela desce irritada do carro, bate a porta com força, como se quisesse trancar seu desafeto lá para sempre, o carro arranca, cantando pneu, demonstrando o quanto seu dono está furioso. Ela passa correndo, se esvaindo em lágrimas
e senta em um banco da praça proximo ao ponto do ônibus, se desespera, levanta como se tivesse prestes a correr atrás do carro, mas desiste, e senta chorando novamente.

“Ele” a observa indiferente enquanto acende outro cigarro e muda a musica de seu mp3 para “heartbeats”. Ela nota que é observada, respira fundo como tentando absorver o choro, mas se engasga no meio dele, abaixa o rosto entre as mãos e o ergue, como se estivesse firme, tentando dizer para um desconhecido, “foi uma fraqueza, estou forte de novo”. Ela o encara,
seus olhos profundos, os quais “ele” não identifica a cor, e assim ficam por alguns instantes, quando o carro em que a pouco ela estava, pára a frente
do banco e seu dono desce, arrependido, talvez por perceber que estava prestes a perder a mulher de sua vida, ou apenas por lembrar que ela é boa de cama.

Ela levanta e ameaça ir embora, e seu, agora afeto, a segura, a puxa e a beija, estão calmos, conversam, não mais discutem. Fizeram as pazes talvez, ou deixaram para discutir outro dia, isso cansa.

“Ele” tira uma goma de mascar do bolso e continua parado observando, indiferente. Os dois agora são um casal apaixonado, como se fossem
namorados recém-iniciados, pedem desculpas um ao outro (talvez) e trocam juras de amor eterno que duram até a proxima briga. Ela pula no pescoço do namorado, ou seja lá o que for, e o abraça forte e demoradamente.

“Ele” continua com sua face inexpressiva, mascando sua goma enquanto eles caminham em direção ao carro, mas antes de se sentar, ela olha firme e longamente para “ele”, dá um sorriso indecifrável e penetrante e, após alguns segundos, fecha porta.

Ele retribui o olhar, sem face, inexpressivo, troca a música de seu mp3 para “bettersweet symphony”, e quando o carro arranca, ele baixa a cabeça e finalmente sorri, para si mesmo.

 

Velocidade

Ao som de “Enter Sandman” ele pisava fundo no acelerador, gostava de ouvir seu motor V8 rugir como um monstro desses de filme, na pista da esquerda na BR, com a seta ligada o tempo todo pedindo passagem, sentia a potência do carro transpassar para suas mãos transformando carro e motorista em uma só coisa, dançando na pista a 180 km/h estava apenas começando a mostrar do que era feito. Ah, a velocidade! Não bastava ser rápido, não bastava ser o mais rápido, ele queria sentir que encontrou seu limite, e ultrapassá-lo, ir além, muito além dele.

A música toca – “Seek and Destroy” – o carro mais rápido beirando os 200 km/h. Ele não enxergava nada ao seu lado, aliás, não ousava olhar para os lados, mal respirava, adrenalina alta demais, força e potência, mais potência, pisou mais fundo e então nota mais um carro. Indo pela pista da direita, o estava alcançando, uma gargalhada, e pisa mais fundo, 235 km/h, o carro ao lado acompanhando e os motores gritando tão agressivos quanto tornados saindo de uma feroz tempestade.

O carro ao lado grita mais forte, e abre uma pequena distância, outra gargalhada, ele agora era pura adrenalina, sentia o sangue correr em cada veia, ouvia cada peça do motor trabalhando, cada gota de óleo circulando no motor, cada pingo de gasolina explodindo enquanto a velocidade aumentava para alcançar o carro ao lado, 260 km/h foi o suficiente para ultrapassá-lo. Sua mente estava livre, somente a velocidade, não ouvia, não via, apenas sentia a velocidade.

Mas a música muda, “The Unforgiven II”, ele agora a ouvia, distante no meio do som do motor, o carro ao lado diminui rapidamente, ele ri, foi mais rápido, mas isso não é suficiente, e então o tempo para, os 260 km/h passam em câmera lenta enquanto ele vê uma curva ao longe, consegue pensar mais rápido que isso, achou seu limite, era hora de ultrapassá-lo, pisou mais, e o motor faz seu último esforço desesperado para atender a seu mestre, ruge como se fosse explodir, e trava seus 268 km/h, ele ultrapassou seus limites, se superou e ria enquanto via a curva se aproximando.

Pode ver cada capotagem que o carro fez, ouviu cada pedaço de mental entortar, cada vidro estourar, cada peça do motor quebrar, viu tudo em câmera lenta, enquanto sentia alguns ossos quebrarem e pedaços de metal o atravessarem até o carro finalmente parar, esmagado com as rodas para cima. Um grande silêncio paira. Ele quase não respira. Não se mexe, o corpo inteiro dói. Sente sangue escorrendo pela boca, caindo em seus olhos, que veem tudo invertido agora. Mas ele sorri e gargalha. O som quase destruído agora toca “Nothing else matters”.

E nada mais importa, por que ele conseguiu o que queira.

Uma noite ruim

Ela acorda irritada, sem cobertor de novo, olha para o lado e lá está seu parceiro, enrolado como em um casulo, roncando alto, de costas para ela.

Levanta brava, como ele a irrita, ele é apenas a gota d’água, está sem paciência consigo mesma. Caminha até a cozinha, está abarrotada de louças, apenas suspira desanimada e procura um copo para tomar água, mas descobre que não há nenhum limpo, desiste, vai até a sala e abre a janela. Fica lá parada observando a rua deserta, mais especificamente o nada.

Reflete sobre si mesma, e se pergunta: “o que aconteceu comigo?”, tinha tantos sonhos, ilusões, planos. Queria ser médica, cardiologista para ser exata. Estudar muito, se tornar referência, ser a melhor, viajar para lugares desconhecidos levando conhecimento, ajudar as pessoas, ajudar humanidade. Ir para África talvez? Fazer a diferença, mostrar ao mundo quem ela era.

Mas ao invés disso, preferiu acreditar em juras de amor eterno, da perspectiva de uma vida de realizações a dois, de um mundo romântico e regado a rosas e flores pelo seu caminho. Abriu mão de tudo, afinal para algo assim dar certo, são necessários sacrifícios, cujos quais serão recompensados por novos horizontes, um novo dia a cada alvorecer, uma nova cumplicidade e o mesmo amor e paixão do primeiro dia em que seus olhares se cruzaram.

Trocou seu jaleco branco de médica por um vestido branco de noiva, trocou seu árduo caminho para a realização de um sonho por um tapete vermelho em uma igreja, trocou os gritos de um povo em sofrimento pelas músicas agitadas da festa de casamento, trocou as bençãos de agradecimento de pessoas que ajudaria a salvar pelo sorriso feliz dos convidados, trocou sua alma livre e destemida por um mundo modesto e feliz.

Mas seu mundo feliz aos poucos desmoronou, a colação de grau no curso agora escolhido em conjunto, não foi a realização pessoal, foi um alívio por se livrar de algo que aprendeu a ter raiva. A tortura de acordar dia após dia para trabalhar e se trancar naquele cubículo fechado a enoja, e os fins de semana antes tão românticos e promissores, hoje são feitos de futebol na televisão e programas de “emburrecimento cultural”. A rotina impera e tudo é previsível, tão previsível que sua fuga é dormir e sonhar, dormir não pelo cansaço, mas para ficar mais tempo longe de sua realidade.

Suspira na janela de novo e uma lágrima escorre de seu rosto, e ao longe ouve uma voz: – Amor, está tudo bem?

Essa voz quase a faz pular pela janela de desespero e raiva, mas se segura e responde: – Está, só não aguentava mais ouvir você roncando. – Eita mau humor hein? – ele responde mal-humorado.

Ela fica em silêncio, “mau humor?” pensa num misto de raiva e tristeza, ele destruiu sua vida, a fez abandonar sonhos, lhe prometeu felicidade, lhe prometeu uma vida que não é esta. Monstro insensível, aliás, monstro é um elogio, ele é algo pior.

Ainda brava ela caminha para a cama novamente, onde ele agora parou de roncar, mas antes de entrar no silencioso quarto, ela se encosta na porta e por um instante se volta a realidade. Ele nunca prometeu nada, ela imaginou essa vida, ele não a fez desistir, ela desistiu, ela teve medo do mundo novo e incerto, ela teve medo do duvidoso e resolveu se esquivar atrás de uma vida mediana e desanimadora.

Deitou novamente, e puxou seu lado do cobertor, de costas para seu parceiro, olhou o calendário ao lado da cama, suspirou de novo e pensou:

- TPM maldita.

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Presságios

Certa vez me disseram, que ver um corvo voando solitário no céu é um bom presságio , mas que ver vários, é sinal de sofrimento. Nunca dei atenção para essas coisas, mas naquele dia vi um sobrevoando o prédio em que eu trabalhava e por alguns instantes sorri, um sorriso fraco e sem forças, e alguns segundos depois vi 6 deles, e enquanto eu refletia sobre o quão sem sentido era essa crença, ouvi uma batida na janela do meu carro.

- Tudo bem Dr? – perguntou minha secretária , que me aguardava a quase 15 minutos na entrada do saguão.
- Sim sim – respondi – estava distraido.
- A reunião começa em 10 minutos. – disse ela com um certo nervosismo.
- Obrigado, já estou subindo – respondi com minha habitual calma.

Eu podia entender o nervosismo dela, era o que eu deveria estar sentindo, afinal, essa reunião definiria que eu seria, tudo que fiz até hoje em minha carreira e em minha vida era com o objetivo de ali onde eu estava.

Ao longo de 25 anos abri mão de toda minha vida em função da minha carreira, da minha realização profissional. Deixei de sair,abandonei amigos, perdi casamentos, perdi festas, alegrias, perdi os primeiros passos de meus filhos e todo resto que não me lembro. Minha esposa reclama dia após dia que nunca estive ao lado dela, que ela nunca soube quem eu era de verdade. Mas nada disso nunca me importou. Até a manhã de hoje, quando vi os corvos.

O caminho até a sala foi imenso, a cada passo via um ano de minha vida passando à minha frente, e me assustava o quão rapido eles passavam e que tão poucas lembranças eu tinha deles.

O nome de meus amigos a muito se perderá, e a pessoa mais proxima de mim era minha secretária, a qual conhecia meus compromissos e apenas isso.

A sala de reunião finalmente chega, todo conselho da maior empresa que conhecia estava reunido, e ao contrario do que todos pensariam, eles estavam nervosos, pois eles dependiam de mim.

A reunião começa, e faço o que sei fazer, mostro que salvei a empresa e que acima disso, a tornei mais poderosa do que qualquer acionista poderia sonhar, e obviamente, me tornei mais poderoso do que a empresa, afinal, eu era a empresa.

E assim virei, por aclamação o presidente e maior acionista dela, tendo finalmente alcançado o que eu queria.
Sem um sorriso no rosto, sai da sala e me dirigi a minha sala nova, muito embora eu já tivesse tomada conta dela a muito tempo. Ao entrar nela, uma carta, caminho até a imensa varanda da sala, e a leio, era de minha esposa, agora ex, dizendo: “Estive ao teu lado por todos esses anos, mas voce nunca esteve ao meu, nem ao de ninguem, sei que conseguiu finalmente o que queria, sei que nao esta feliz, nem nunca estará, mas não posso compartilhar disso mais, vou seguir o meu caminho e tentar ser feliz com o que me resta. Seu filho casa amanha. Adeus” E com minha calma de sempre, amasso a carta e a jogo no lixo. Por um instante o sol bate em meu rosto e eu respiro fundo, e penso:
- E agora estou a deriva…
Ouço então minha secretária falando ao interfone:
- Doutor, o jato está pronto e lhe aguardando, mas sua esposa disse que seu filho casa amanha, quer que eu cancele seu compromisso?
Permaneço mais alguns segundos na varanda enquanto vejo os mesmo 7 corvos sobrevoando a minha frente, os contemplo em silencio, vou até o interfone e respondo:
- Não, apenas mande um presente a ele, já estou descendo. – respondo frio e sem expressão.

“Um corvo voando solitário no céu é um bom presságio , mas vários, é sinal de sofrimento.”

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ZERO

“ZERO” é o numero de ideias que ele tem agora. “É hora de tomar um rumo”, pensa ele, agora um recém formado, mas qual rumo? A ideia imposta pela sua ideologia de criação é clara e simples. Estude, tenha um bom emprego, case, tenha filhos e aquela balela toda que ele ouve desde que nasceu. Mas isso soa patético, desesperador. Acordar, ir para o mesmo local, passar 8 horas, voltar, sentar na frente da tv, dormir e assim os dias se passam um após o outro.

“Não”, pensa ele, “Não quero isso”. Qual o outro caminho então? Ser altruísta, um heroi, ser admirado pela coragem, por ajudar, por lutar pela liberdade de um povo oprimido. Parece uma boa visão, mas a vida não seria dele, seria doada em função de outros. Ghandi, Madre Tereza, Luther King fizeram isso, mas ele não, tem apenas uma vida, ele não quer disperdiçá-la sendo bom com os outros.

“Poder, é isso que preciso”, pensa ele, ter ferrari’s, mansões, mulheres, dinheiro ilimitado. Sim, é isso que ele quer. Mas, a menos que tenha nascido virado para lua, só se consegue poder com trabalho, esforço, jogos de poder. Isso é cansativo demais, e provavelmente quando ele conseguir, já estará velho demais para aproveitar, isso se conseguir.

“Viajar” é o que lhe resta. Conhecer o mundo, “trabalhar” o suficiente para ir de um lugar para o outro, entrar para uma ong vez ou outra para “ajudar”, mentir para as mulheres que tem “poder e fama” e assim viver, sendo único, destemido, ter tudo e não ter nada. Sim, é isso que ele quer, ser livre, sem amarras, sem compromissos, com desafios dia após dia, viver intensamente. Ele não quer estar na média, se mediano é ser medíocre.

“É hora” de por em prática, junta as economias, pede ajuda para os pais, mas o dinheiro não dá nem para o começo, faz um empréstimo no banco, afinal, vai para longe, vai ser livre, e não pagará juros, aliás, não pagará a dívida.

“Tudo pronto”, finalmente ele embarca em um avião, o mp3 ligado por baixo do moletom e do capuz, para ser rebelde até mesmo com a aeromoça, o avião decola e ele respira fundo. “Lá vou eu mundo” e finalmente ele sente que achou seu rumo.

“Fortes Turbulências” é o que o comandante diz da cabine, o avião treme mais que o normal, e a turbina direita, de repente se incendeia. Ele entra em desespero, se arrepende de tudo, queria todas as outras hipóteses, menos aquela, queria estar na média, mas não está. Em parte, isso o faz se sentir menos pior.

“ZERO” é o número de sobreviventes do avião, uma “média” de 40 pessoas morreram na queda, o restante  afogadas.